
Antes dos vídeos virais, um chute na televisão já havia provocado uma reação nacional. Na madrugada de 12 de outubro de 1995, dia de Nossa Senhora Aparecida, Sérgio von Helder atacou com socos e pontapés uma imagem da Padroeira do Brasil durante a programação religiosa da Record. O episódio entrou para a memória do país como o “chute na santa”.
Hoje ex-pastor da Igreja Universal do Reino de Deus, Von Helder ocupava, naquela época, o cargo de bispo e comandava a instituição em São Paulo. A cena completa 31 anos em 12 de outubro de 2026. A própria Universal confirmou, em publicação de 2012, que ele já não integrava seu ministério.
O que aconteceu depois envolveu pedido público de perdão, transferência para o exterior, condenação judicial e uma decisão de recurso que precisa ser considerada para contar essa história por inteiro.
A Record havia sido adquirida em 1989 por Edir Macedo, fundador da Igreja Universal. A compra é registrada tanto no acervo da Folha de S.Paulo quanto no portal oficial da instituição religiosa.
A cobertura publicada pela Folha em 13 de outubro de 1995 relaciona as cenas aos programas “Despertar da Fé” e “Palavra de Vida”. Durante a exposição, Von Helder criticava o uso de imagens na devoção católica e apresentava a estátua como um objeto de gesso.
Tratava-se de uma representação usada na televisão, diferente da imagem histórica venerada no Santuário Nacional de Aparecida. A agressão alcançou, porém, o significado religioso daquele símbolo para os devotos.
Interrogado pela Justiça em dezembro de 1995, Von Helder negou ter agredido a imagem. Alegou que apenas a tocara com as mãos e os pés para demonstrar sua composição e afirmou que agia de acordo com sua interpretação da Bíblia. Essa foi a versão apresentada por ele no processo, segundo o registro da Folha.
A reação levou Edir Macedo à televisão em 15 de outubro de 1995. O fundador da Universal pediu perdão aos católicos e classificou a atitude de Von Helder como “impensada” e “desastrosa”.
Um detalhe dá a medida da crise: o pronunciamento interrompeu a transmissão de Nápoli e Fiorentina, pelo Campeonato Italiano. A controvérsia havia ultrapassado a faixa dos programas religiosos e entrado no restante da programação da Record.
A condenação ao gesto também veio de lideranças evangélicas. Caio Fábio, então presidente da Associação Evangélica Brasileira, alertou para o risco de intolerância religiosa. O bispo metodista Geoval Jacinto da Silva igualmente rejeitou a agressão.
Von Helder foi transferido pela Universal para os Estados Unidos após a repercussão do episódio.
Em 30 de abril de 1997, Von Helder foi condenado em primeira instância por discriminação religiosa e vilipêndio de imagem religiosa. A decisão partiu da 12ª Vara Criminal de São Paulo. Por ser réu primário, ele recebeu o direito de recorrer em liberdade, conforme notícia publicada pela Folha no dia seguinte.
O processo teve outro capítulo em novembro de 1999. Segundo reportagem contemporânea do Diário do Grande ABC, o Tribunal de Justiça de São Paulo manteve a condenação a dois anos de reclusão por incitação à discriminação religiosa, mas concedeu a suspensão condicional da pena, conhecida como sursis, por dois anos.
O tribunal também reconheceu a prescrição do crime de vilipêndio. Isso significa que a passagem do tempo impediu a punição por esse delito. O sursis, por sua vez, permitia suspender a execução da pena mediante o cumprimento de condições estabelecidas pela Justiça.
A devoção tem origem no encontro da imagem por três pescadores no Rio Paraíba do Sul, em 1717, segundo a história divulgada pelo Santuário Nacional. Das reuniões de oração em ambiente familiar, a veneração se expandiu e passou a reunir peregrinos.
Em 1930, o papa Pio XI declarou Nossa Senhora Aparecida Padroeira do Brasil. Já o feriado nacional de 12 de outubro foi instituído pela Lei nº 6.802, de 30 de junho de 1980, que menciona expressamente a Padroeira em seu texto.
Para compreender a devoção, há uma distinção central na doutrina católica. O parágrafo 2132 do Catecismo explica que a veneração de uma imagem se dirige à pessoa representada. A adoração, segundo esse ensinamento, é reservada a Deus.
O manto azul e a pequena figura, portanto, carregam um significado que ultrapassa o material de que são feitos: remetem à devoção a Maria e à história religiosa de seus fiéis.
O artigo 5º, inciso VI, da Constituição Federal assegura a liberdade de consciência e de crença, o exercício dos cultos e a proteção aos locais de culto e às suas liturgias. Essa garantia alcança pessoas de diferentes religiões.
O artigo 208 do Código Penal prevê punição para o vilipêndio público de ato ou objeto de culto religioso. Em linguagem direta, trata-se de uma ofensa pública que avilta esse ato ou objeto. A pena prevista é de um mês a um ano de detenção, ou multa.
O artigo 20 da Lei nº 7.716/1989, em sua redação atual, também criminaliza praticar, induzir ou incitar discriminação ou preconceito por religião. A legislação sofreu alterações ao longo dos anos; suas regras atuais devem ser distinguidas das aplicáveis ao episódio de 1995.
Décadas depois, Von Helder mantém uma presença pública ligada à religião. Em reportagem publicada em 28 de setembro de 2026, o jornal OVALE descreveu o ex-bispo, aos 67 anos, divulgando vídeos gravados nos Estados Unidos.
As mensagens abordam religião, política, organização financeira e envelhecimento. Segundo o jornal, ele também critica a dependência de fiéis em relação a líderes religiosos e fala da vida com a mulher.
A cena de 1995 permanece associada ao debate sobre intolerância religiosa. No calendário dos devotos, o 12 de outubro segue como dia de celebrar uma fé cuja história começou mais de três séculos antes daquele programa de televisão.


