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Início das aulas presenciais e as defasagens de aprendizagens
airo Pereira de Souza é professor na EMEB Clóvis Hugueney Neto, em Cuiabá-MT
08/02/2022 11h05
Por: Redação Âncora

 

Aprendi, há tempos, que a Educação é direito de todos e dever do Estado e da família. A educação pública, por sua vez, é o setor que mais se aproxima dessa premissa, uma vez que, por essência, existe para atender a todos.

As aulas na escola pública no município de Cuiabá, para o ano letivo de 2022, começam na próxima segunda-feira, dia 07/02. As centenas de alunos reiniciarão os estudos depois de um longo tempo de atividades remotas e/ou híbridas. Foram dois longos anos de ausência da sala de aula. E aqui, quero deter minha reflexão.

Sou professor da rede pública municipal em uma escola na periferia de Cuiabá. Meus alunos, em sua esmagadora maioria, não conseguiram, durante todo este tempo, acompanhar ou participar das aulas on-line. É preciso dizer que isso trouxe prejuízos sem precedentes para estas crianças.

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Apesar da pandemia não ser responsabilidade direta de nenhum agente da educação municipal, somos nós, da rede pública, os inscritos para corrigir, ou, como queiram, correr atrás deste prejuízo todo.

Os problemas começam exatamente aqui. Ora, a escola pública não é um todo homogêneo. Em um município com uma rede de ensino do tamanho da nossa, esta realidade é uma obviedade. Não se pode tratar de forma igual aquilo que é, essencialmente, diferente.

A secretaria municipal de educação dispõe de um diagnóstico duvidoso, para dizer o mínimo, em relação a este período de aulas remotas. Estes relatórios, produzidos não se sabe como, dão conta que bem mais de 90% dos alunos da rede foram devidamente atendidos. Esta pode até ser a realidade de algumas poucas escolas, porém, está longe de ser um retrato fiel da totalidade das nossas unidades.

Sabemos que é a partir do diagnóstico que se define quais ações implementar para sanar determinado problema. É assim em qualquer planejamento que almeja resolução de necessidades educativas.

Fazendo analogia com a medicina, diagnóstico errado, remédio igualmente errado. Como a rede considera alunos atendidos, as ações no sentido de corrigir defasagens de aprendizagens são tímidas, para não dizer nulas.

Não se viu, nesta semana pedagógica promovida pela SME, foco, com ações práticas, nesses alunos que não conseguiram estudar à distância. Resultado disso são crianças e adolescentes indo para os terceiros, quartos e quintos anos sem estarem, sequer, alfabetizados.

A prefeitura, como mantenedora das escolas, deveria determinar à SME que aplicasse, já nos primeiros dias deste ano letivo, uma avaliação diagnóstica séria que verdadeiramente retratasse a situação das aprendizagens dos alunos. A secretaria de educação, por sua vez, trataria os alunos, através de suas respectivas unidades de ensino, de maneira individual, ou seja, abandonasse, de uma vez por todas, essa ideia de que as escolas são iguais.

As unidades educacionais deveriam ter tranquilidade para planejar, individualmente, de maneira autônoma, suas ações visando este aluno real e não aquele que está no mundo ideal criado pela SME.

Em tese, esta autonomia já existe. Na prática, porém, o que se tem são materiais didáticos padronizados com determinações, inclusive, de quais páginas devem ser trabalhadas em uma aula, assessores pedagógicos que sequer são conhecidos pelo corpo docente, coordenadores pedagógicos com montanhas de documentos e formulários para serem preenchidos, e que, por sua vez, repassam essas tarefas aos professores, tomando precioso tempo destes para atividades mais pertinentes.

A escola, apesar de fazer parte de uma rede, é única, como únicos são também cada estudante. Assim devem ser tratados, na sua especificidade, como não cansam de dizer os teóricos da Educação.

Enquanto os envolvidos na tarefa de promover educação não assumirem, de fato, esta tarefa, teremos a manutenção deste quadro com um retrato de defasagem e desigualdade educacional.

 

Jairo Pereira de Souza é professor na EMEB Clóvis Hugueney Neto, em Cuiabá-MT