

A promessa parece simples: uma aplicação, alguns quilos a menos e a autoestima fazendo hora extra. O problema é que, quando o assunto envolve medicamento, a história não termina no “antes e depois” publicado nas redes sociais.
Produtos vendidos em grupos de WhatsApp e perfis da internet aparecem com nomes diferentes, embalagens chamativas e concentrações que parecem impressionantes. Mas o consumidor precisa olhar além do rótulo: laboratório, origem, conservação, concentração, registro sanitário, falsificação e situação legal também entram nessa conta — e não aceitam filtro de Instagram.
T.G., Lipoless, Tirzec, Lipoland e Gluconex declaram conter tirzepatida, substância que atua nos receptores de GIP e GLP-1. Em tratamentos indicados por médicos, ela pode ajudar no controle da glicose, reduzir o apetite, aumentar a saciedade e retardar o esvaziamento do estômago.
As marcas são associadas a laboratórios paraguaios diferentes: T.G. à Indufar; Lipoless à Éticos; Tirzec à Quimfa; Lipoland à Landerlan; e Gluconex à Lasca.
Há produtos em frascos de dose única, multidose e diferentes volumes de solução. Na prática, duas embalagens com a mesma indicação de “15 mg” podem ter volumes, concentrações e formas de aplicação diferentes.
E aqui mora uma confusão comum: ter a mesma molécula declarada não significa ser equivalente ao Mounjaro, da Eli Lilly, registrado no Brasil. Também não comprova que o produto tenha a mesma pureza, esterilidade, estabilidade, dosagem ou segurança.
Uma análise do Centro de Informação e Assistência Toxicológica da Unicamp examinou amostras de marcas paraguaias e encontrou molécula compatível com tirzepatida em todas as unidades analisadas.
Calma: isso não é um “selo de aprovado”. O teste não avaliou eficácia clínica, esterilidade, contaminantes ou segurança de longo prazo.
Em uma amostra de Gluconex, a concentração encontrada foi aproximadamente 60% superior à informada no rótulo. As outras marcas apresentaram variações menores dentro dos parâmetros utilizados pelos pesquisadores. Confira os detalhes da análise.
A autoridade sanitária paraguaia também alertou, em fevereiro de 2026, para a existência de um lote falsificado de T.G. 10. Ou seja: até quando o nome da marca parece conhecido, o frasco pode não ser aquilo que promete.
A retatrutida é outra molécula. Ela combina a ação em três receptores hormonais — GIP, GLP-1 e glucagon — e ainda está sendo estudada para obesidade e doenças metabólicas.
A Eli Lilly divulgou resultados preliminares de estudos de fase 3, mas informou que a substância ainda não foi aprovada para comercialização. A empresa pretende apresentar pedidos de aprovação somente depois da conclusão do programa clínico. Veja a atualização oficial.
Por isso, produtos vendidos como “retatrutida”, principalmente em frascos ou canetas sem fabricante claramente identificado, não devem ser tratados como medicamentos regulares. A autoridade sanitária do Paraguai já alertou para produtos sem registro e sem fabricante autorizado. No Brasil, produtos identificados como retatrutida estão sujeitos a proibição de fabricação, importação, venda, publicidade e uso.
Não automaticamente. A receita emitida no Brasil pode ser aceita como documento médico, mas a farmácia estrangeira pode exigir prescrição local ou simplesmente recusar a venda.
A compra deve ser feita apenas em farmácias licenciadas, com nota fiscal, embalagem original, lote e validade. Vendedores de redes sociais, clínicas sem autorização para dispensação e intermediários que prometem “envio discreto” não oferecem a mesma rastreabilidade de um estabelecimento regular.
E existe um detalhe importante: receita médica não transforma produto proibido em produto permitido.
Em algumas situações, a legislação brasileira permite a importação de medicamentos para uso pessoal, em quantidade compatível com o tratamento e sem finalidade comercial. Na fiscalização, podem ser solicitados receita, relatório médico, nota fiscal, embalagem original, lote e validade.
Essa possibilidade não se aplica a produtos com proibição específica. T.G., Lipoless, Gluconex, Lipoland e retatrutida estão entre os itens com restrições expressas de importação, venda, publicidade ou uso no Brasil. Comprar no Paraguai ou apresentar uma receita não elimina essa regra.
O Tirzec não possui registro no Brasil. Até a data desta apuração, não foi localizada uma proibição nominal específica com esse nome, mas isso não significa autorização de venda ou garantia de entrada. A eventual importação pessoal continua sujeita à fiscalização e às regras vigentes no momento da viagem.
Comprar várias caixas para terceiros, revender, enviar por transportadora ou tentar esconder o medicamento não caracteriza uso pessoal.
Para quem tem indicação médica e utiliza tirzepatida regularizada:
Náusea, diarreia, constipação, vômitos e dor abdominal podem ocorrer. Dor intensa e persistente, vômitos que impeçam a hidratação, desmaio, inchaço no rosto ou dificuldade para respirar exigem atendimento imediato.
A perda de peso também deve ser acompanhada de alimentação adequada e exercícios de força, para reduzir a perda de massa muscular. A obesidade é uma condição crônica, e a interrupção do tratamento pode favorecer a recuperação do peso.
Quem já usa um produto de origem duvidosa ou atingido por proibição não deve aumentar, reduzir, fracionar ou substituir a dose por conta própria. Procure rapidamente o médico responsável ou um farmacêutico e leve a embalagem, o lote e o comprovante de compra.
Orientação importante: antes de iniciar, interromper ou trocar qualquer medicamento para emagrecimento, busque sempre orientação médica. Não use produtos comprados pela internet ou em redes sociais sem confirmar a origem e a segurança.
Fontes: Anvisa, Eli Lilly, Unicamp/Exame e Diretrizes da Abeso.





