Economia Negócios
Produtividade e saúde mental entram em gestão empresarial
Entrada em vigor da nova fase da NR-1 acelera revisão de modelos de trabalho marcados por equipes enxutas, excesso de demanda e aumento de afastame...
09/06/2026 17h10
Por: Especial para o Âncora Notícias Fonte: Agência Dino

Nos últimos anos, empresas brasileiras aceleraram a automação e metas de produtividade para preservar margens sob pressão econômica. O modelo trouxe performance, mas gerou desgaste ao operar sob forte pressão financeira, dificuldade de contratação e estruturas enxutas. Com as novas exigências da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), a revisão de estruturas baseadas em acúmulo de funções tornou-se prioritária.

A mudança ocorre enquanto organizações enfrentam custos elevados com saúde mental. Dados do Ministério da Previdência Social registram 546.254 benefícios por incapacidade temporária por transtornos mentais em 2025 (alta de 15,66% ante 2024), liderados por ansiedade e depressão.

Considerando o recorte de gênero, as mulheres representaram 63,46% dos afastamentos registrados em 2025. São Paulo lidera o número de concessões no país, com 149.375 benefícios relacionados a transtornos mentais e comportamentais.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima perda global de US$ 1 trilhão/ano em produtividade por esses males, enquanto a Deloitte aponta que 73% das lideranças sentem maior pressão por performance. A nova NR-1 agora exige o monitoramento de riscos psicossociais, como sobrecarga e desgaste emocional.

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"O principal impacto está na revisão da forma como as operações funcionam", afirma Bruna Ribeiro, advogada trabalhista especialista em risco ocupacional, que continua ao dizer que as empresas normalizaram o excesso de demanda: "Muitas operações passaram a depender de improviso e acúmulo de funções. Enquanto o resultado vinha, isso era interpretado apenas como eficiência. Parte das empresas acabou normalizando modelos sustentados por excesso de demanda e estruturas reduzidas, muitas vezes como resposta às pressões econômicas e operacionais dos últimos anos".

O impacto financeiro é real: a Gallup indica que profissionais esgotados faltam 63% mais. "A saúde mental impacta diretamente na sustentabilidade da operação", diz Patrícia Bastazini, da Bastazini Contabilidade, que defende o equilíbrio entre performance e capacidade de sustentação. "O ponto central é encontrar equilíbrio entre performance, responsabilidade e capacidade real de sustentação. Muitas empresas ainda tratam saúde mental apenas como uma pauta subjetiva ou trabalhista, mas o impacto aparece diretamente na sustentabilidade da operação", avalia.

Segundo ela, o desafio atual das empresas não está em eliminar cobrança ou metas, mas em construir estruturas capazes de sustentar produtividade sem comprometer a estabilidade operacional, retenção e capacidade das equipes no médio prazo.

Lucas Oliveira, da LCS Contabilidade, nota que o desgaste afeta a previsibilidade: "Empresas muito pressionadas convivem com retrabalho e perda de produtividade. Muitas organizações continuam olhando apenas para o resultado imediato e não conseguem medir o quanto estruturas excessivamente pressionadas reduzem a eficiência no médio prazo".

A sobrecarga atinge os líderes. "As pessoas se dedicam mais, mas avançam menos. Quando o líder não define prioridades, tudo se torna urgente", pontua Flávio Lettieri, especialista em gestão e desenvolvimento de lideranças. Ele ressalta que "metas agressivas sem clareza de prioridade deixam de ser apenas um problema de gestão e passam a representar um risco organizacional", exigindo comunicação assertiva e capacitação.

Para Vanessa Queiroz, psicóloga, o problema é estrutural: "Existem equipes funcionando há anos acima da capacidade real de sustentação emocional. Quando pressão constante e ausência de pausa passam a ser padrão de alta performance, a empresa opera sem capacidade de recuperação" e completa: "O que muitas empresas começaram a perceber agora é um desgaste estrutural das operações. Existem equipes funcionando há anos acima da capacidade real de sustentação emocional".

Segundo ela, o excesso acabou sido incorporado à cultura de produtividade de muitas empresas. "Quando pressão constante, excesso de demanda e ausência de pausa passam a ser vistos como padrão de alta performance, a empresa começa a operar sem capacidade de recuperação".

A pressão também aumentou em setores marcados por alto volume de conflitos e cobrança emocional contínua, como condomínios e gestão predial.

Para Vanessa Munis, especialista em gestão condominial e comportamento organizacional, síndicos, gestores e equipes passaram a absorver demandas emocionais muito acima do que essas operações tradicionalmente suportavam. "Condomínios se tornaram ambientes de tensão permanente. As equipes lidam diariamente com conflitos, pressão constante e desgaste emocional sem estrutura adequada de suporte".

Dados do Tribunal Superior do Trabalho (TST) mostram crescimento das discussões relacionadas a burnout, assédio organizacional e adoecimento emocional nos últimos anos. A advogada Ribeiro conclui que a NR-1 acelera a percepção de que "produtividade sem estrutura aumenta a exposição jurídica e perda de capacidade das equipes". A mudança exige rever modelos de gestão: o desafio não é apenas produzir mais, mas garantir a sustentação da operação no longo prazo.

Na avaliação dos especialistas, a principal mudança provocada pela nova fase da NR-1 não está apenas na adequação documental exigida pela norma, mas na necessidade de revisão dos modelos de gestão construídos nos últimos anos.