Pesquisas que podem redefinir o futuro do agronegócio brasileiro, especialmente na cultura de soja e milho, estão sendo conduzidas em pleno perímetro urbano de Várzea Grande, cidade vizinha à capital mato-grossense. No campo experimental do curso de Agronomia do Centro Universitário (UNIVAG), práticas como controle biológico, resistência a herbicidas, manejo fitossanitário e monitoramento climático são aplicadas diariamente por alunos e professores.
Um detalhe curioso. Boa parte dessas pesquisas é financiada por recursos gerados por uma lavoura incomum no campo experimental — o melão amarelo. Cultivado em menos de um hectare, ele chega a produzir até 30 toneladas por safra e cumpre papel estratégico na sustentabilidade acadêmica. Parte da produção é vendida internamente a preços acessíveis, e outra parte é doada a instituições sociais, fechando um ciclo de impacto acadêmico, econômico e comunitário.
“O melão tem função social e acadêmica. Ele gera receita que sustenta pesquisas com as principais commodities do estado, como soja e milho. Por meio dele mantemos bolsas de estágio, adquirimos equipamentos e avançamos em estudos estratégicos, como desenvolvimento de híbridos de milho tolerantes à seca e manejo sustentável da soja”, explica o professor doutor Carlos Eduardo Souza Bezerra, coordenador do curso.
Com duas safras anuais, o melão também serve como vitrine de tecnologias modernas — irrigação por gotejamento, sensores de umidade, tensiômetros e imagens aéreas.
“Produzir em área urbana exige criatividade. Aqui cultivamos e comercializamos outros alimentos como ovos caipiras, milho verde, mandioca, banana, limão, melância. Mas nosso protagonista é o melão, que nos permite garantir a continuidade das pesquisas e, ao mesmo tempo, mostrar à comunidade que a agricultura sustentável é possível perto da cidade”, afirma Bezerra.
Resultados que impactam o agro
Mato Grosso lidera a produção nacional de soja e milho. Em 2024, foram colhidas mais de 45 milhões de toneladas de soja e 50 milhões de toneladas de milho, segundo o Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária - IMEA. No UNIVAG, o campo experimental testa resistência de plantas a herbicidas, controle biológico de pragas como a lagarta-do-cartucho, manejo nutricional e irrigação de precisão na soja, além de avaliação de produtividade e tolerância à seca em híbridos de milho.
Entre os estudos recentes, destacam-se:
- Adubos fosfatados em sucessão soja-milho: aumentaram os teores foliares de fósforo no milho sem comprometer a produtividade da soja.
- Tratamentos químicos em sementes de soja: combinações como Ciantraniliprole + Tiametoxam e Fludioxonil + Metalaxyl-M proporcionaram desempenho superior em germinação e vigor inicial.
“Esses resultados mostram como as pesquisas realizadas pelos alunos de Agronomia impactam diretamente a soja e o milho, provando que investir em culturas menores, como o melão, traz retorno científico e social significativo”, reforça Bezerra.
O coordenador conta que nos últimos cinco anos, o curso de Agronomia consolidou pesquisas apresentadas no Dia de Campo, reunindo empresas, produtores e sociedade. “Com apoio de instituições como Aprosoja-MT e SENAR-MT, conseguimos transformar a formação dos alunos em soluções práticas para o agro. Os dias de campos são ideais para os estudantes apresentarem suas pesquisas", explica Bezerra.
Agro sustentável que dialoga com a cidade
A experiência do UNIVAG demonstra que agricultura sustentável não é exclusividade de grandes propriedades ou áreas remotas. Em apenas seis hectares, o campo experimental integra ensino, pesquisa, geração de renda e ação social, preparando futuros agrônomos para os desafios de um agro cada vez mais eficiente e responsável.
“No futuro, a sociedade urbana precisa entender que a comida na mesa depende da pesquisa no campo. Nosso desafio é mostrar que é possível produzir mais, com menos impacto — e isso começa aqui, dentro da cidade”, concluiu Carlos Eduardo Bezerra.