Com um crescimento médio anual de 7% entre 2015 e 2024, os brechós em Mato Grosso se consolidam como um dos setores de maior expansão no varejo sustentável. Em 2025, 37 novos CNPJs foram abertos, elevando o número total para 324 estabelecimentos ativos no estado, segundo dados da Receita Federal.
O fenômeno reflete uma mudança nos hábitos de consumo e fortalece o movimento da moda circular. Além de ser uma alternativa econômica para os clientes, os brechós estimulam o empreendedorismo e promovem práticas mais sustentáveis.
“O mercado de roupas usadas no Brasil está em expansão, com projeções de crescimento entre 15% e 20% até 2030, segundo estudo sobre Moda Sustentável conduzido pelo Boston Consulting Group (BCG), podendo até superar o fast fashion,” explica Alberto Santana, analista técnico do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae/MT). “Esse cenário cria novas oportunidades para empreendedores, que podem desenvolver negócios alinhados às demandas de um consumidor mais consciente", pontuou Santana.
Dados do Sebrae/MT apontam que no Estado, a maioria dos brechós opera como Microempreendedores Individuais (MEIs), totalizando 209 registros, seguidos por 100 Microempresas (MEs) e 15 Empresas de Pequeno Porte (EPPs). Cuiabá concentra 81 brechós ativos, enquanto Várzea Grande conta com 24 estabelecimentos, refletindo a força da tendência na região metropolitana.
Empreendedorismo de segunda chance
A moda sustentável tem transformado vidas e impulsionado negócios. Gessica Duarte Silva, proprietária do Reuse Brechó, em Chapada dos Guimarães, começou vendendo roupas dos filhos pequenos e viu no setor uma oportunidade de negócio promissora.
"Comecei em um quarto da minha casa, planejando uma loja online. Mas logo percebi que os clientes preferiam ver e tocar as peças," relata Gessica.
Diante da demanda crescente, ela expandiu o negócio e hoje opera em um espaço físico. "Vejo isso como um meio de preservar o meio ambiente de diversas formas, como a redução de matéria-prima e o descarte irregular de peças que ainda podem ser aproveitadas", afirmou Gessica.
Outro caso inspirador é o de Meire Lúcia de Oliveira, advogada há mais de duas décadas que encontrou na moda circular um novo propósito. Criadora do Mamys Moda Sustentável, Meire enxergou no setor uma maneira de oferecer peças de qualidade a preços acessíveis.
“A motivação era criar um brechó com mais qualidade de roupas,” afirma Meire. “Essa prática permite democratizar o acesso à moda, além de incentivar um consumo mais consciente”, completou.
Inicialmente, o negócio funcionava de casa, com vendas online e lives. Após um crescimento expressivo, o brechó expandiu e ganhou um espaço físico há um ano em Cuiabá.
Menos desperdício, mais estilo
A essência dos brechós vai além do comércio: trata-se de um modelo de negócios que reduz impactos ambientais e fortalece a economia circular. Segundo Camila Andrade, analista técnica do Centro Sebrae de Sustentabilidade, a prática prolonga a vida útil dos produtos e evita que se transformem em resíduos precocemente.
"Os brechós reintroduzem roupas e acessórios no mercado, diminuindo a demanda por novos itens e reduzindo o impacto ambiental da produção," explica Camila. "O consumo responsável tem ganhado força nos últimos anos, impulsionado pela moda sustentável e pelo conceito de slow fashion”, afirmou.
A especialista reforça que, além de educar os consumidores, os brechós incentivam a indústria da moda a repensar seus processos, incorporando princípios da economia circular.
"Isso significa desenvolver produtos cujos componentes e materiais possam ser reutilizados, refeitos ou reciclados. Essa mudança estimula a economia local e reduz a quantidade de resíduos enviados para aterros sanitários,” concluiu Camila.
Com a força dos brechós e o avanço do consumo consciente, Mato Grosso se consolida como um polo da moda circular, impulsionando negócios sustentáveis e redefinindo hábitos de consumo.