Em julho de 2023, a aldeia Japuíra, do povo Myky, vivenciou um momento inesquecível. As anciãs Paatau e Kamunu se emocionaram ao assistir ao filme "Mopái Pjuta Ãkakeje´u: A roça e os alimentos Myky", o primeiro curta-metragem Myky realizado exclusivamente por mulheres. Este filme destaca os saberes ancestrais de cultivo e preparo de alimentos do povo Myky, habitantes do território Menkü em Brasnorte (MT), uma área rodeada por grandes lavouras do agronegócio.
As cineastas do filme enfatizaram o papel crucial das mulheres na preservação dos conhecimentos tradicionais e na liderança das roças comunitárias e hortas familiares. As mulheres são as principais responsáveis pela subsistência e segurança alimentar da comunidade, cultivando alimentos e ingredientes do Cerrado e da Amazônia.
O povo Myky é conhecido por suas técnicas únicas de cultivo de sementes crioulas e por sua alimentação saudável e abundante. Nas roças do território, são produzidos alimentos como milho, mandioca, batata, cará branco e roxo, amendoim e diversas espécies de feijão. Além disso, os Myky praticam o extrativismo de castanha, caju do mato, tucum, pequi, buriti e bacaba.
O filme, pronto para participar de festivais, é fruto de um projeto de formação em cinema e audiovisual para mulheres indígenas, liderado pela cineasta Jade Rainho e a cine-educadora Amanda Palma. Elas ensinaram às alunas todas as etapas da produção de um documentário, desde o desenvolvimento do argumento até a montagem final.
Kamtinuwy Myky, uma das realizadoras do filme, expressou sua empolgação com o processo de filmagem e edição. Ela e outras cineastas Myky, como Kojayru Myky, Mãnynu Myky, Njãkyru Myky, Njãwayru Myky, Takarauku Myky e Tipuu Myky, desenvolveram a pesquisa e o roteiro, escolhendo as mulheres da comunidade que seriam retratadas.
A pós-produção e distribuição ficaram a cargo da Cadju Filmes e parceiros, com a ilustração do cartaz feita pela artista visual Raiz Rozados. O projeto foi financiado pelo edital Viver Cultura, do Governo de Mato Grosso, e pelo programa de aceleração Move-MT, além de contar com apoio cultural da Assembleia Social, Assembleia Legislativa de Mato Grosso, Labora e MT Criativo.
Jade Rainho destaca a importância de projetos que promovem o protagonismo feminino e a formação de cineastas indígenas. Ela acredita que a formação em documentário pode ser adaptada para outras populações sub-representadas, mas atualmente o foco está em continuar com grupos de indígenas.
Jade enfatiza que as jovens cineastas Myky agora têm a capacidade de multiplicar o conhecimento adquirido e continuar contando suas histórias, ensinando sobre a vida em harmonia com a Terra. O projeto visa honrar e valorizar a herança ancestral e os talentos presentes, priorizando a autonomia criativa e identitária das jovens protagonistas.
Jade Rainho é ativista pelos direitos humanos e da natureza, além de diretora e roteirista de diversos filmes, como "Flor Brilhante e as Cicatrizes da Pedra" e "O Jardim de Maria". O projeto realizado na aldeia Myky é mais uma demonstração de seu compromisso com a valorização das culturas indígenas e a formação de novos narradores.